Como você agiria diante dessas opções?

 

Não posso deixar de perceber uma coisa curiosa nos jornais alemães. Toda vez que leio um texto sobre alguma personalidade estrangeira de sucesso e que por acaso tenha sobrenome tipicamente germânico, a matéria diz coisas como, por exemplo, “a modelo brasileira de raízes alemãs Gisele Bündchen etc…”, “o ex-tenista brasileiro três vezes campeão de Roland Garros, Gustavo Kuerten, cuja família é de origem alemã etc…”

Curiosamente, há três anos, quando estorou o escândalo dos Panama Papers, que revelou como políticos e personalidades do mundo inteiro haviam criado empresas de fachada e cujas sedes eram somente caixas postais, eu não li na época uma única menção que um dos sócios do escritório de advogados Mossack Fonseca, que estava no epicentro do furacão, também tinha raízes alemãs.

No esporte atitudes assim também acontecem.

Imagine que você seja um torcedor do Flamengo (tudo bem, ninguém é perfeito). Repare que, se o time conquistasse um campeonato, você sairia batendo no peito dizendo que “fomos campeões”, “ganhamos porque somos os melhores” etc.

Mas, se por acaso o título fosse conquistado pelo adversário, você diria que “o Flamengo (sem incluir você) perdeu o jogo”, “os jogadores (não você) vacilaram” e por aí vai.

Na verdade, tudo isso é um princípio de associação. Especialmente numa partida esportiva é o seu eu que está em jogo.

De forma similar, os designers também são acometidos desse princípio.

Conceber um projeto gráfico requer uma sintonia fina com o cliente. Você recebe um briefing, discute os critérios, trabalha de acordo com um conceito lógico e criativo e entrega a solução que você julga ser a melhor.

O problema é quando o cliente começa a dar palpites sem fundamento, alterando uma coisa aqui, distorcendo outra ali e desconectando os pontos que você uniu. É a hora em que você começa a se distanciar da sua própria obra, que à essa altura vai-se tornando aos poucos um personagem de Mary Shelley.

Em casos assim o designer pode-se valer basicamente de três opções:

1. Caia fora. E rápido. Você é um designer de princípios. Não vai querer ver o seu trabalho mal-feito. Além disso, o valor do projeto não compensa a dor de cabeça. Seja educado com o cliente (claro, é importante manter as portas abertas), mas corte o mal pela raiz.

2. Argumente com seu cliente. Pondere com ele as razões pelas quais as ideias geniais que ele propõe não cabem no projeto. Mas faça algumas concessões que não venham a descaracterizar a estrutura da proposta que você criou. Ele fica feliz, achando que o produto final tem o dedo dele. Você não se irrita com o que vê, pois sabe que o design, apesar de tudo, tem a sua marca.

Ou então:

3. Aja como uma boa donzela. Às favas com essa coisa de princípios. Se o pagamento for muito bom, seja pragmático: faça tudo o que o cliente pede. Ele vai ficar satisfeito com o resultado. Mas não assine embaixo. Afinal, você não se enxerga mais como o criador da criatura. É apenas um projeto gráfico que ficará ausente do seu portolio. De preferência, escondido para sempre numa caixa postal no Panamá.

Qual é a sua escolha?

 

Foto: Helloquence