O porquê de se investir numa campanha

Em junho de 1886, o navio alemão Paula iniciou um experimento para estudar as correntes oceânicas que afetavam as rotas marítimas. Durante um longo período, a tripulação jogou ao mar milhares de garrafas de vidro que continham pequenos pedaços de papel. Eram mensagens pedindo para quem quer que as encontrasse, que as reportasse ao Observatório Naval Alemão, informando em que ponto da costa a garrafinha havia sido encontrada.

O publicitário David Ogilvy afirmou certa vez que, “a menos que sua campanha contenha uma grande ideia, ela passará como navios na noite”. Ou, por que não, como garrafas perdidas no oceano.

Como consumidores, temos uma relação ambígua com a propaganda. Há aqueles que são atraídos pelo sentimento de desejo e merecimento por produtos e serviços que ela desperta. Acho até que me encaixo nesse grupo.

Por outro lado, há outros que vêem nela um exemplo cínico de persuasão.

O próprio Ogilvy vê na propaganda não uma arte de entreter, mas um meio de informar. De levar uma mensagem interessante o bastante que convença alguém a comprar o seu produto ou serviço.

Saber como, quando e onde direcionar seus esforços de comunicação é o que difere, no fim das contas, uma divulgação eficaz de sua marca de uma mensagem que fica boiando pra lá e pra cá.

À propósito: em março deste ano, treze décadas após ter sido jogada nas águas do mar, uma mulher que caminhava pelas dunas de uma praia remota no oeste da Austrália encontrou uma das garrafas do Paula.

Moral da história: invista numa grande campanha ou espere 132 anos por um feedback.

Vale um bilhão?

Recentemente minha filha foi assistir ao show da Beyoncé e de seu marido, o rapper Jay-Z, que estiveram numa turnê pela Europa. Mas antes de passar por aqui pela Alemanha as duas estrelas estiveram em Paris, onde fizeram um ensaio fotográfico no Museu do Louvre.

Dias depois vi numa revista uma das fotos deste ensaio. Em close, os dois lado a lado olhavam seriamente para o leitor. Atrás deles, em segundo plano, o quadro da Mona Lisa. O título da matéria: “Três ícones”.

A legenda da foto informava que a pintura mais famosa do mundo tinha o valor estimado em um bilhão de dólares. Nada mau para uma obra que, como muitas, começou a surgir em um ateliê modesto na Itália renascentista.

Agora, no início de agosto, ao atingir o preço da ação em US$ 207, a Apple viu sua marca atingir o mesmo valor de um trilhão de dólares. Nada mau para uma empresa que, como muitas, começou a surgir numa garagem modesta na América dos anos 1970.

Mas o que me fez coçar a cabeça foi saber que, segundo a revista Forbes, a fortuna de Jay-Z beira os US$ 900 milhões. Enquanto sua mulher tem que se contentar com apenas US$ 350 milhões de patrimônio (descontado o património físico da moça, é claro).

Nada, absolutamente nada, contra a riqueza deles. Muito pelo contrário. Admiro os vencedores.

Mas será que uma Beyoncé e um Jay-Z somados valem mais do que uma Mona Lisa?