O fim da caligrafia

Não sei quando foi a última vez que eu escrevi ou recebi uma carta escrita a mão. A não ser por eventuais recados ou alguma lista curta que rabisco para me lembrar do que fazer, o fato é que o computador nos tirou esse hábito.

Mas ainda recebo, vez por outra, alguns cartões postais, que chegam principalmente nos períodos de férias e de fim de ano. São muitas vezes nessas ocasiões que dá pra perceber o designer que existe ou não no remetente.

Sei que a minha caligrafia não é lá das melhores. Mas fico incomodado quando vejo uma mensagem escrita por linhas tortas. É como se uma grafia confusa e desordenda revelasse uma falsa representação daquilo que somos.

Em A Virada, Stephen Greenblatt descreve a história do humanista Poggio Bracciolini (1380-1459), um caçador de pergaminhos da antiguidade que ficaram mantidos há séculos nos mosteiros da Europa.

Afinal, com o declínio do Império Romano, coube aos monges, obrigados ao hábito da leitura, preservar e copiar através de gerações textos que mantiveram vivas as ideias do mundo antigo.

Poggio copiou vários desses textos. Descobriu e recolocou em circulação no mundo o poema milenar De rerum natura, de Lucrécio. E, dotado de uma bela caligrafia, tornou-se por tabela um dos precursores do design gráfico moderno.

É fascinante ver que, numa época em que a prensa móvel de Gutenberg começava a surgir, alguém tenha concebido uma letra tão legível e  diferente de tudo o que se conhecia até então.

Poggio Bracciolini abriu espaço entre as palavras  e criou um padrão de letra cursiva e arredondada (1) que deu origem ao que hoje a gente conhece como letra itálica.

O cara se dava o trabalho de fazer furinhos nas margens para que as folhas fossem bem fixadas e não corressem durante a escrita (2). Ainda por cima elaborou 26 pautas por páginas, bem finas, para que o espaço entre as linhas de texto, perfeitamente alinhado pela esquerda (3), fosse o mesmo.

É claro que hoje o ambiente é outro. Mas me pergunto se no mundo digital em que vivemos a caligrafia vai desaparecer de vez. Fico pensando até mesmo se a nossa assinatura um dia vai se-tornar um código binário.

Mas sobretudo me assusto ao imaginar se a minha lista de supermercado, que eu escrevi à mão hoje de manhã, será redescoberta daqui a uns quinhentos anos por um andróide humanista.

 

Foto: Reprodução de manuscrito de Poggio, Biblioteca Laurenciana, Florença.
Fonte: “The Swerve”, de Stephen Greenblatt

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